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Na noite de glória do mundo da moda que saiu às ruas da baixa, das travessas de croquetes de camarão e dos copos chiques de espumante, das meninas equilibristas em saltos mais altos que andas e dos meninos em camisolas de alças três números acima, o desfile sufocante de after shave caro, laca e óculos de sol usados de noite não se fez parar e entrar pelas portas de saloon do Musicbox, seguindo esta rua pintada recentemente de cor-de-rosa abaixo para paragens menos áridas e secas.

Quem deixou as portas abanando indefinidamente na noite passada foram os Sleepy Sun, quinteto norte-americano que chega a Lisboa para os primeiros concertos de uma tour europeia de apresentação do álbum que lançaram no início do ano, "Maui Tears". Serão sete países diferentes em apenas um mês, com segunda paragem marcada já para a tarde de hoje em Valada do Ribatejo, seja lá onde quer que isso seja, onde subirão ao palco da primeira edição do festival Reverence, uma ode ao psicadelismo e uma maratona autêntica de bandas e artistas, e onde partilharão backstage com Electric Wizard ou Mão Morta.

Apertando-se entre numerosos instrumentos e elementos no pequeno palco do espaço lisboeta, a banda fê-lo transbordar de uma acidez arrepiante e hipnótica, imediata e confortavelmente assente em volumosas e cortantes guitarradas, que oscilavam e dançavam entre si, guiando-nos entre a languidez escoante e o fuzz arenoso e desgarrado. Um autêntico cocktail que vem misturar elementos tórridos dignos do deserto de um qualquer western americano, e os interliga a animadas percussões tribais e a deliciosos apontamentos harmónicos, quase como se de um ritual festivo se tratasse, com poucas pausas ou diálogo, uma degustação quente e pesada e sem pausas para respirar. 

Os quase dez minutos da insinuante "Sandstorm Woman" são o ponto mais alto do concerto, insinuante senhora que nos seduz em dança lenta através das cordas sinuosas, do zéfiro da harmónica e do pulsante baixo, que nos toma o âmago e a mão para uma dança sem presença corpórea, no tema que fecha o aclamado "Fever", de 2010. O bastante requisitado encore traz-nos o clássico "New Age", faixa de abertura do primeiríssimo álbum da banda e para muitos de nós o primeiro contacto, chamando-nos a voz de coro antes de agitarmos violentamente a cabeça, num saudosismo primal reminiscente desse longínquo ano maravilha de 2009.

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