cmd+f

filhodamae+ricardomartins[2016].txt

Prolíficos em aventuras e colaborações, Rui Carvalho e Ricardo Martins são dois dos músicos mais proativos e interessantes a povoar a praça lisboeta. Um duo incansável de artistas com um talento gigantesco e cuja destreza com um instrumento nas mãos nos deixa sempre de boca aberta, pese o inuendo óbvio, e cuja união será sempre um choque de gigantes.

O Rui é há mais de dez anos uma das personagens mais reconhecíveis atrás de uma guitarra, seja ela elétrica ou acústica. Foi durante imenso tempo um ímpeto do extravasar sónico, figurando no alinhamento dos aguerridos, barulhentos e míticos If Lucy Fell, imediatamente atrás das acrobacias do Makoto. Mais recentemente tem explorado com bastante e justo sucesso um dedilhar solitário e expansivo sob o cognome Filho da Mãe, um projeto muito mais tradicional e de pés assentes na terra, que lhe permite mostrar toda a sua destreza e criatividade.

Em paralelo, o Ricardo ganhava relevo enquanto máquina incansável de pancada em timbalões e pratos, como baterista dos Lobster, duo de ruído caótico e explosivo. Reconhecidamente um tipo muito afável e disponível, a sua ética de trabalho e constante necessidade de criar fez com que viesse a abraçar todos os projetos que o tempo e o corpo lhe permitissem agarrar — emcabeçando a composição explorativa dos Cangarra ou a emoção desgarrada dos Adorno, e as suas mais recentes extensões, os tropicais Papaya e os juvenis NOZ², para além de ter aberto o seu próprio gabinete de design com a namorada, a Desisto, e tenho a impressão de que está ainda do outro lado da minha janela a olhar para mim enquanto escrevo este texto.

As suas carreiras viriam a interligar-se oficialmente, de forma descomprometida e natural, algures em 2010 quando integraram o alinhamento dos I Had Plans. Assumindo os rótulos de tudo o que há de pós no hardcore, sendo uma das últimas bandas da altura a explorar esse estilo, a banda de origem lisboeta contava com um notável alicerce instrumental a sustentar com uma exatidão quase matemática os vocais arranhados e fugazes. Viriam entretanto a fazer jus ao nome, não confirmando os planos que haviam feito e extinguindo a formação pouco depois.

Nesta noite fria e invernosa de fevereiro, chegamos ao Cais do Sodré com as expetativas clara e compreensivelmente elevadas para assistir a novo encontro de titãs. O ambiente familiar sente-se horas antes, quando passamos no clássico Pérola de São Paulo para um copo e os encontramos tranquilamente jantando. Também ali estão o Iúri, aquele que era o vocalista dos I Had Plans, e que hoje estará encarregue do som, e também o Óscar, o segundo guitarrista da banda e curiosamente um moço com quem partilho o dia de anos, que entretanto galgou o seu próprio caminho na música, na pele reptiliana do exótico JIBÓIA.

Através dos vimaranenses Revolve, Filho da Mãe e Ricardo Martins juntam-se para lançar uma edição em preparação há quase um ano, e que já conta com diversos concertos marcados, a que chamaram de "Tormenta". Uma coerência que se viria a sentir sonoramente — cada música segue um guião certeiro e progressivamente mais ruidoso, assentando uma urgência taxativa e crescente. Se reconhecemos uma brita dançável em "Estrela e Acabada", dominada pela infusão harmoniosa da bateria na progressão da guitarra, somos depois transportados para uma hipnose melódica em "A Tia Dela", ou aos contrapassos de um prato difícil de digerir em "Truta Salmonada".

Ao vivo, a bateria musculada ganha no braço de ferro imediato, subjugando as cordas para segundo plano. O Ricardo é um baterista tremendo, com uma força e ganas enormes mas segurando a baqueta com toda a segurança e mestria, convulsionando freneticamente aos nossos olhos. Mas o Rui não lhe fica exatamente atrás qualitativamente e a sua destreza no dedilhar cuidado e turbulento é impressionante, de forma natural e em perfeita sinergia e simbiose com o primeiro. A espaços conseguimos ver onde se apoiam e onde competem, onde o esgar de conquista rapidamente se transforma num apoio imediato, um baile que não acompanhamos por completo mas que nos deixa tão felizes de presenciar.

A família aparece gradualmente para festejar com eles — Cláudia Guerreiro, baixista de carreira comprovada nos Linda Martini e recente mãe do filho do Filho da Mãe; Norberto Lobo, guitarrista de eclética formação e habilitações igualmente elevadíssimas, embora um explorador mais aventureiro; o saudoso Shela, que vem enquanto o seu projeto LAmA, e o próprio Óscar, aqui já mencionado, fechando a noite. O público grita-lhes, sorri, dança e agita-se no emaranhado inebriante, tornando-se outro membro efusivo deste encontro familiar, num cenário de euforia incrivelmente festivo e bonito que apenas peca por ter um fim.

Sem comentários: