Tive na faculdade um par de professores de design que adoravam jazz, tanto que interompiam as aulas para nos mostrarem os seus artistas preferidos e o que para eles significavam. O primeiro, sempre muito certinho na sua camisa azul por dentro do polo de malha, idolatrava Miles Davis, John Coltrane e os clássicos; o segundo adorava soltar o corpo e a mente nos corredores, numa desgarrada improvisação em cassette difusa de um qualquer artista por descobrir e que hoje estaria no cartaz do Out.Fest. Na mesma altura tive a sorte de conhecer colegas, músicos e estudantes de música, que olhavam o jazz como a sua maior influência, que o usavam como matriz e que o absorviam com um brilho nos olhos e uma sede imensa.
Para todos eles, jazz era vida. E eu, um completo imberbe no que àquele ou mesmo a tantos outros temas de vida se tratassem, olhando até ali de fora para o que eles sentiam de coração, fui descobrindo durante esse verão toda uma palette de cor e som e sentimento e entrosamento e revolta e alegria e comunidade, entre a música de elevador, o Charles Mingus, o Thelonious Monk, o Chet Baker, o Cowboy Bebop e os Badbadnotgood.
Convidaram-me então para a festa de lançamento do segundo álbum dos La La La Ressonance, que ia gostar depois desta lavagem toda, e eu não me fiz de rogado, apesar de o nome me remeter para uma banda de gajas aos gritos sobre um qualquer drone industrial. Na noite lisboeta achei-os jovens, achei-os atrevidos, achei-os bailarinos e dançantes, brincalhões e leves. Foram possivelmente uma das primeiras amostras locais que tive de como o balanço e a fluidez do jazz que tinha admitido naqueles meses, se podia diluir, misturar e influenciar a cena rockeira, numa altura em que a equação matemática e o punk dominavam o Tejo e Barcelos fervia em fogo lento quase em ebulição.
No ano passado [2012] tive então oportunidade de os reencontrar no Milhões de Festa, a jogar em casa e com um novo álbum na algibeira, e não obstante a carga de festival, a noite gélida, o escaldão de corpo inteiro que trazia da piscina e que me ardia na pele, ou o álcool que me fazia balançar entre palcos, distingui-os enormes, crescidos e amadurecidos. Menos brincalhões, mais contemplativos, deambulantes, tocando faixas eternas que faziam por explorar o universo aparentemente infinito entre o rock progressivo e introspectivo e o jazz corpulento e melancólico, e que fizeram soar tão expansivo e ecoante contra as margens do Cávado.
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